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FABIO: Poderia, Ana Cristina, apresentar-se para nós?
ANA CRISTINA: Sou cega há 21 anos, já fui baixa visão, trabalho na
rede municipal de ensino de Niterói e na UNIVERSO.
MARINA: Quais são os desafios que você identifica para que a
inclusão seja implementada de fato?
ANA CRISTINA: O maior desafio que vejo é a mudança comportamental.
Você mudando a sua atitude, sua mentalidade, a maneira de ver o outro,
o resto acontece: diminuem as barreiras arquitetônicas, a luta para
sermos inseridos no mercado de trabalho, para termos acesso a um
curso superior, para sermos respeitados em todos os ambientes.
Todos somos diferentes, porém, nossos direitos são iguais.
FABIO: Fala um pouco do seu trabalho.
ANA CRISTINA: Eu trabalho numa escola regular em Niterói, que
tem a pretensão de ser inclusiva. Nós temos em torno de 1.500
alunos, sendo 96 deles com deficiências em geral. É um trabalho
gratificante, porque faço o que gosto. É também uma luta
diária porque, o tempo todo, você tem de provar que é
capaz, que dá conta e que é inteligente, que pensa e sente, QUE antes de
ser cega eu sou um ser humano, cidadã, mulher, educadora, esposa,
futura mãe e, depois de tudo isso é que vem a cegueira. As pessoas
têm que entender isso: a cegueira tem de vir por último e
não primeiro.
MARINA: Você também dá aula numa universidade, como é a
recepção dos alunos em relação a você?
ANA CRISTINA: Eu dou duas matérias: Sistema Braille e pedagogia
diferencial da cegueira (educação de pessoas cegas e com baixa visão),
na faculdade de pedagogia. No primeiro dia de
aula, todo semestre, é um impacto:os alunos pensam que sou uma aluna,
não acham que uma pessoa cega possa ser a professora. É a falta de
informação. Todos estão acostumados a ver o deficiente como
alguém que só pode ser servido. São incapazes, infelizmente, de nos
verem como pessoas como todas, que têm, sempre, algo a ensinar,
trocar com os outros. Mas, depois de alguns minutos de conversa, fica
tudo bem e, na maioria das vezes, eles confessam que nunca imaginaram
que eu, uma cega, pudesse ser a professora.
MARINA: No nosso programa, nós temos um quadro chamado
ação nas ruas, onde vamos verificar a acessibilidade dos espaços
públicos da cidade, e eu gostaria que você falasse dessa
questão do
acesso.
ANA CRISTINA: É tudo muito complicado, começando pelas calçadas,
onde, comumente, os carros são estacionados; bancas de camelôs,
lixeiras, orelhões, galhos de árvores baixos, tudo
isso prejudica a nossa mobilidade. A bengala detecta obstáculos baixos,
os aéreos ela não nos deixa perceber. Mas, como disse anteriormente, a
questão da acessibilidade só vai ser, realmente, entendida por todos,
quando as pessoas se conscientizarem que somos
pessoas com deveres, mas também, com direitos.
FABIO: Você poderia escolher uma música que você goste?
ANA CRISTINA: Gosto muito de Palco, do Gilberto Gil.
Fábio: Obrigado, Ana Cristina, ouvimos Palco, de Gilberto
Gil.
Disponibilizado em: 10/10/2005.
