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Estou colocando nesta página trechos do meu livro "Sopro no Corpo", pesquisados pela professora Valdelúcia Alves da Costa para a realização de um trabalho acadêmico, cuja totalidade está disponível no final do texto. Tais trechos, separados do todo do livro como do próprio trabalho, chamam-me a atenção por destacarem questões significativas das diferenças humanas, percebidas por mim na época em que escrevi o livro, sobre as quais acho importante refletir.
Minha intenção, com o livro e este site, é tornar a imagem que as pessoas
trazem dos cegos - como daqueles que fogem ao padrão a que todos estão acostumados
- menos dependente de suas exclusivas imaginações e mais próxima do que somos, de
nossa existência real. Portanto, pretendo que "Sopro no Corpo" e "Bengala Legal"
estejam sendo informativos, educativos, esclarecedores... Tenho esperanças de
estar indo pelo caminho certo.
MAQ.
Destacamos alguns trechos do livro, procurando articulá-los com os estudos e discussões que realizamos no decorrer do nosso curso "DIFERENÇA E DIFERENTES: O Si Mesmo, O Outro, O Mundo", com a Professora Lígia Assumpção Amaral no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, no segundo semestre de 1999, que junto com a turma nos proporcionou momentos ricos de grande reflexão acerca do tema SER DIFERENTE, procurando sempre não nos levar a universalizar a semelhança, mas a nos aproximarmos criticamente da diferença.
"Quando duas pessoas se conhecem, ligam-se primeiro nas aparências. Aos poucos
isso vai sendo superado até se conhecer o que está por trás das aparências. Com o
cego, normalmente, esse processo é mais demorado. É como se a cegueira ofuscasse
seu portador. Para algumas pessoas ela chega até a representar uma barreira
intransponível. (p.84).
Uma coisa também muito comum de acontecer é a generalização. É
como se para as pessoas todos os cegos fossem iguais. Isso nos autorizaria a dizer
que todas as pessoas que têm visão comum são iguais pelo simples fato de verem...
(p.85).
Essa generalização, muitas vezes, me fez sentir uma sobrecarga de responsabilidade
em minhas atitudes para com os outros. Pois elas poderiam representar a simpatia
ou antipatia que as pessoas teriam por todos os cegos." (p.85).
"Você é o cego mais bonito que já vi... É muito mais fácil dizer que sou um cego
bonito do que um homem bonito."(p.86).
"- Você não repara não, mais se eu fosse cego que nem você eu me matava..."
(p.75).
"O problema é que na palavra cego estão embutidos muitos valores depreciativos
tais como dependência, tutela, alienação, ignorância, etc. " (p.76).
"Chamar de cego aquele que tem visão e está alienado de alguma circunstância
implica perpetuar um preconceito histórico e cultural." (P.76).
" Esses assuntos, realmente, são muito polêmicos porque existe por trás uma
herança cultural à qual somos efetivamente condicionados. Penso que isso pode ser
quebrado ou não, dependendo do processo de vida de cada um. Ninguém faz nada sem
motivos, mesmo que os desconheça." (p.57).
"... Por mais que, por vezes, eu me sentisse familiar, no fundo era um
estrangeiro, uma curiosidade. Que coisa estranha." (p.61).
"É preciso, realmente, ser forte para superar as informações que as pessoas nos
dão direta ou indiretamente sobre nossa diferença; como se ela representasse
obrigatoriamente uma inferioridade. A auto-estima fraqueja por vezes, mesmo que já
tenhamos conquistado muitas coisas. Pelo menos, até que a pessoa supere as
pressões que sofre, é muito mais fácil ser cego do que ser visto como cego."
(p.85).
"As idéias e práticas em relação a drogas e a sexo, unindo-se com o sentimento de
desigualdade que já trazia há algum tempo por causa do diabetes, faziam-me sentir
cada vez mais fora dos padrões estipulados e eu me aproximava cada vez mais das
coisas marginais... Por outro lado, não deixei de ser diferente. A cegueira fez da
diferença a minha normalidade pública." (p.121).
"... a aparência dos problemas é algo muito relativo e que só quem os vive sabe o
que eles representam para si." (p.124).
"... cego, diabético, enfim, um ser humano em recuperação. Expliquei logo, porém,
que o diabetes e a cegueira não tinham recuperação possível, mas que as
seqüelas
emocionais, meus sentimentos em relação a mim, aos outros e à vida, sim. Falei que
era diabético desde os três anos de idade e que perdera a visão aos vinte e um
devido a complicações da doença, que isso porém era algo objetivo que gerava
muitas subjetividades em minha personalidade." (p.125).
"Vivia da pensão deixada por meu pai, pelo fato de ser 'inválido', pelo menos,
legalmente inválido."(p.95).
"... O significado, o conteúdo da palavra cego para mim é bem diferente do que é
para as pessoas em geral. Muita gente chega numa de me consolar e diz: 'Cego é
aquele que não quer ver'. Eu diria que essa pessoa não é um cego, mais um
fugitivo de si mesmo, iludido ou idiota.
Para elas deve haver dois tipos de cegos: o cego simplesmente cego e o 'cego'
simplesmente idiota que, usualmente, tem visão. Brabo mesmo deve ser o cego que é
cego e que também é idiota. Seria no conceito dessas pessoas, no mínimo, duas
vezes cego ... Realmente me sinto constrangido quando alguém chama a outro de cego
na minha frente, porque normalmente o cara não possui nenhuma das minhas
características." (p.76).
"A sensação de inferioridade, a auto-rejeição e a
conseqüente autodestruição
estavam sendo vividas por mim sem que eu tivesse uma consciência plena disso.
(p.132).
"No âmbito familiar, os parentes mal-informados acabam, geralmente, por assumir
uma das duas posições: de rejeição e abandono ou de superproteção e tutela. No
caso de superproteção, os familiares procuram suprir todas as necessidades da
pessoa cega sem lhe dar muita chance de fazer algo por si mesma. Tudo chega às
suas mãos. Normalmente, essas pessoas se tornam anti-sociais: mesmo porque têm
medo que, ao sair de casa, os amigos não consigam fazer por ela tudo o que os
familiares já estão acostumados a fazer."(p.84).
"Lembro-me, também, que foi nesse dia que me diverti com uma mulher no
elevador:
- Vai passear?
- Não, vou trabalhar.
- Cego trabalha?
- Trabalha.
- Em quê?
- Eu sou
programador, trabalho em processamento de dados.
- É aquele negócio de
computadores?
- É.
- Cego trabalhando com computador?" (p.15).
"É mais fácil dar uma esmola a uma pessoa cega do que acreditar em sua capacidade
de trabalho." (p.84).
"A discriminação, a tutela e a caridade são instrumentos que tornam inválidas
pessoas produtivas."(p. 85).
"... a crise de empregos para cegos não começou com a crise econômica mundial ou
nacional. Simplesmente teve início com os gregos, quando então a cegueira era
fruto da maldição de algum deus sobre um ser humano castigado por um mal
comportamento, ou causa de superdotação de algum sábio, poeta, ou mesmo filósofo.
De qualquer forma, como infradotados ou superdotados, a discriminação é antiga. E
eu próprio a tinha como a maioria das pessoas. Mesmo até um tempo depois de ficar
cego." (p.87).
"... E, principalmente, tinha muito medo do futuro em relação ao trabalho."
(p.93).
"... Por outro lado, o mercado de trabalho para professores de história era
péssimo. Cego então, ainda mais. Queria saber o que um cego poderia fazer, além de
ser professor..., sabia-se de cegos que eram desde operários de fábricas a
programadores de computador, analistas de sistemas, reveladores de raios x em
câmara escura, fisioterapeutas, advogados, exercendo plenamente a profissão.
Passando-se ainda, tradicionalmente, pelos músicos."(p.94).
"..., quando um cego faz uma besteira numa empresa, culpam a cegueira e não o
profissional. Desde que a cegueira pertence a todos os cegos, começa a ficar ruço
a entrada de outros naquela empresa, fechando-se o mercado." (p.96).
"... dentro de uma empresa dificilmente ele perde o estigma, mesmo sendo um bom
profissional. Nunca soube ao certo que tipo de discriminação estava sofrendo, mas
alguma realmente havia, visto que vários colegas foram promovidos durante esse
período, inclusive estagiários com menos experiência do que eu..."
"Eu trabalhava para me recuperar e integrar." (p.125).
"Recolho de minhas histórias a integração comigo e com o mundo e se, de cada uma,
retirasse seus personagens e esses resolvessem se reunir para escrever um só
livro, tenho a impressão de que contariam a história de todos no planeta. Cegos e
gordos, alcoólatras e velhos, negros e tutelados, aleijados e comunistas,
analfabetos e hemofílicos, órfãos e favelados, caretas e homossexuais, baixinhos e
toxicômanos, feios e presidiárias, solitários e gagos, vesgos e neuróticos,
desempregados e diabéticos, prostitutas e poetas, estrangeiros e impotentes,
pobres e gênios e todos aqueles que se desviaram do padrão do ser humano 'normal',
sendo autores da mesma história, quem sobraria para ser o leitor? Somos a minoria?
O problema é que, na maior parte das vezes, não sabemos conviver com nossa própria
diferença, nem com a do outro. O rótulo é o resultado social da padronização das
diferenças. Imaginou-se, um dia, que um ser humano feliz deveria ser bonito,
saudável, inteligente, rico e sensível. Hoje tenho certeza de que a profundidade e
quantidade de problemas de uma pessoa não determinam sua felicidade; isso depende
de como cada um enfrenta suas dificuldades, se cresce com sua bagagem ou estaciona
em sua dor. Eu mesmo já tive muito menos problemas do que tenho hoje e nem por
isso era mais feliz. Consolo? Não, realidade."(p.135/136).
[ Conheça o Trabalho por Inteiro. ]
Disponibilizado em: 25/05/2001.
