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Bengala Legal.


Sexualidade na Paralisia Cerebral.


Ronaldo Correia Junior.

Sexo e Afetividade.

A imagem mais comum que a sociedade faz do portador de deficiência física é a de um paraplégico sentado numa cadeira de rodas. Devido à confusão entre cérebro e mente, mesmo os "especialistas" (neurologistas, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, etc.) acostumados a lidar com pessoas com deficiência, pensam que uma lesão cerebral implica necessariamente em retardo mental. No entanto, mesmo segundo o ultrapassado teste de QI, ao menos em 25% dos casos, não existe comprometimento da capacidade mental. Por fim, como quem tem paralisia cerebral quase sempre precisa de outra pessoa para se alimentar, banhar, vestir, etc, geralmente o vêem como um bebê ou um anjo. Assim, ora os problemas da sexualidade de portadores de lesão cerebral, mental e psicologicamente normais são tratados como iguais aos dos tetra e paraplégicos, ora são associados aàs pessoas com deficiência intelectual (mental) ou são simplesmente negados, pois são vistos como assexuados.

No sexo em si, como em tudo o mais, o grande problema dos portadores de paralisia cerebral é a falta de coordenação motora. Além do mais, a paralisia cerebral deforma suas feições físicas, tornando-os um improvável objeto de desejo de um homem ou mulher, e dificulta ou impossibilita a fala, a qual é importantíssima na sedução. A quem dispõe de algum dinheiro e é homem, resta apelar para a profissão mais antiga do mundo, o que gera uma série de problemas familiares, inclusive por serem vistos como crianças ou anjos, além de reduzir ainda mais sua auto-estima e ser fonte de constrangimento. Porém, mesmo para tais "privilegiados" a vida sexual raramente deixa de ser altamente insatisfatória, o que causa tensão, insônia, ansiedade, entre outros problemas psicológicos, psicossomáticos e fisiológicos. Se em certos casos a necessidade de sexo pode ser (muito mal) suprida com dinheiro, a de amor, a de uma companhia do sexo oposto não. O que machuca, fere, dói na alma. Alguns têm a saúde seriamente prejudicada porque a família não os leva a urologistas ou ginecologistas, já que são considerados assexuados. Outros sofrem abuso sexual, às vezes repetidamente, sem ter possibilidade alguma de se defender e, devido à impossibilidade de falar, comunicar, contar o que aconteceu, também de denunciar os agressores.

São evidentes as grandes dificuldades para alguém ter atração, relações sexuais e/ou amorosas, filhos com um portador de paralisia cerebral e, portanto, ter uma sexualidade problemática é inerente à sua condição. Entretanto, embora o discurso sobre "beleza interior" seja quase sempre hipócrita, de modo nenhum é impossível um homem ou uma mulher se interessar por eles e se dispor a enfrentar tais dificuldades. Mas aí emerge toda a carga de preconceitos e visões distorcidas pelos quais não podem fazer sexo, namorar, se casar e ter filhos, isto é, nestas ocasiões a sociedade tende a negar-lhes os direitos humanos mais básicos. Mas o fato é que os portadores de paralisia cerebral cuja capacidade mental não foi afetada não têm, ao contrário dos tetra e paraplégicos, problemas de sensibilidade tátil e em ter prazer, e têm desejos, amam e se apaixonam como qualquer pessoa "normal".

Ronaldo Correia Junior - Paralisado Cerebral.

Disponibilizado em: 09/10/2000.



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