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Sonia B. Hoffmann.
Diversidade em Cena.
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O manejo da bengala pela pessoa cega ou com baixa visão é considerado, por muitos leigos no assunto, uma tarefa bastante simples, restringindo-se em levar a bengala a frente do corpo e tatear o chão em busca de algum obstáculo, degrau ou buraco. No entanto, observando-se tão-somente o aspecto motor, esta tarefa revela-se complexa, requisitando a aquisição e o desenvolvimento de habilidades motoras e sensoriais específicas e especializadas.
Esta aquisição de destrezas, porém, não implica a espera do momento motor ideal da pessoa ou sua obtenção de habilidades prévias de uma forma não significativa - a qual tomaria sua importância e significado quando realizada justamente com o uso da bengala. O surgimento e o desenvolvimento mecânico de habilidades motoras nem sempre garantem a funcionalidade de uma determinada ação. Além disto, há movimentos que, para deixarem de ser rudimentares, necessitam exatamente da interação do indivíduo com uma determinada tarefa e em um determinado ambiente. Assim, existirá sempre uma correlação entre indivíduo, tarefa e ambiente para o desenvolvimento motor do ser humano.
Neste sentido, percebe-se como grande valia o embasamento teórico associado a uma prática observacional e avaliativa para o planejamento, estruturação, execução e monitoramento de um programa de ensino das estratégias de orientação e da mobilidade de pessoas cegas ou com baixa visão no espaço próximo ou distante, contudo, significativo a ela.
Este artigo traz contribuições para a organização de um programa de Orientação e Mobilidade (OM) e busca, também, o desencadeamento do processo reflexivo sobre alguns enfoques motores a serem considerados para o progresso desta atividade - desde as questões individualizadas do aprendiz até a escolha do profissional que estará em cena neste processo educativo.
As pessoas, ao longo do tempo, passam por mudanças e, necessariamente, também mantêm uma igualdade em certos aspectos do seu desenvolvimento. A mudança de comportamentos, posturas, habilidades e condutas é sistemática e adaptativa, de caráter qualitativo e/ou quantitativo, ocorrendo em muitas instâncias e facetas diferentes do Eu. Para a facilitação do entendimento, há uma tendência de categorização desta relação mudança-similaridade através de uma abordagem na qual existe uma separação dos elementos de um processo globalizado. Surge, então, o desenvolvimento físico ou motor, cognitivo e afetivo e o desenvolvimento psicossocial em cada período da vida. Contudo, essas abordagens não são nem isoladas e nem resultado de um somatório, mas estão entrelaçadas. Cada aspecto afeta os outros influenciando-os e repercutindo em diferentes pontos de crescimento e desenvolvimento do indivíduo.
Neste segmento, são enfatizadas a obtenção e o desenvolvimento de habilidades motoras, as quais, de forma alguma, acontecem sem a participação ativa e influenciadora dos demais aspectos desenvolvimentais humano.
O desenvolvimento motor ocupa-se de mudanças nos movimentos, ações e habilidades acontecidas ao longo da vida, desde a concepção até a morte do indivíduo. No seu estudo, o movimento é definido como uma mudança no tempo real, envolvendo energia, controle e produção de força. As ações são comportamentos dirigidos a uma determinada meta, são específicas e têm um propósito - no caso, o manejo e o uso da bengala. Por sua vez, as habilidades referem-se à capacidade do indivíduo na execução de uma tarefa de forma segura e estável, com grande probabilidade de sucesso devida aprendizagem da equilibração entre a estabilidade e a instabilidade passíveis de serem encontradas no deslocamento e da orientação do indivíduo em determinado ambiente.
Com isto posto, é essencial para o professor ou para o instrutor de O&M conhecer o aprendiz, suas habilidades motoras já adquiridas e aquelas que devem ser desenvolvidas para o desempenho produtivo e efetivo da tarefa de manejo da bengala e da locomoção. Do mesmo modo, é fundamental que seja considerado o nível de motivação para o desempenho destas duas tarefas, pois, como assinalam Carroll (1968) e Hoffmann (1998), o grau de motivação para o deslocamento de uma pessoa cega deverá ser maior em proporção ao grau de dificuldade causado em sua locomoção com a bengala em virtude dos possíveis, sérios e vários riscos de acidentes, constrangimentos e entraves que ela tenha de enfrentar no seu percurso - os quais provavelmente acontecem com mais frequência com as pessoas cegas ou com baixa visão do que com aqueles que enxergam.
Assim, o conhecimento das necessidades e habilidades do aprendiz é de vital importância, reconhecendo-se que cada indivíduo possui um conjunto diferente de capacidades físicas, mentais, emocionais e sociais construídas ao longo da sua vida, como resultado das suas experiências, vivências e cultura. Este (re)conhecimento é importante para a estruturação de um planejamento eficiente ao aprendizado de habilidades específicas e a organização de sessões de treinamento.
Considerações sobre a aquisição e o desenvolvimento de capacidades e habilidades do indivíduo devem, assim, fazer parte do conjunto de informações e questões a serem observadas pelo professor de OM. Neste sentido, torna-se prudente a reflexão sobre algumas diretrizes trazidas por Galahue e Ozmun (2005), as quais podem ser relacionadas ao aprendizado das estratégias para o manejo e uso da bengala:
O ritmo da aprendizagem acontece não somente a partir das capacidades e potencialidades individuais para a assimilação, construção e registro das informações, mas também envolve as influências socioambientais experimentadas pelo indivíduo no seu contexto micro e macrossistêmico que atuam cotidianamente, constituindo os fundamentos psicoculturais e filosóficos da sua conduta e comportamento.
Todas as diferenças e similitudes encontradas no desenvolvimento humano revitalizam a singularidade e a peculiaridade que caracterizam cada indivíduo. A condição motora do aprendiz é, além das demais possibilidades desenvolvimentais, um aspecto relevante para sua organização como indivíduo e da sua organização dentro do projeto de vida.
Na perspectiva da teoria dos sistemas dinâmicos, difundida por Galahue e Ozmun (2005), o organismo humano é auto-organizado e composto de vários subsistemas, levando o indivíduo a alcançar o controle motor e a competência motora. A coordenação e o controle motor surgem como resultado final de vários sistemas que trabalham dinamicamente de maneira cooperativa. Os sistemas derivados da tarefa, do indivíduo e do meio ambiente operam separadamente e em conjunto para determinar o nível, a sequência e a extensão do desenvolvimento.
Os padrões preferidos de comportamento motor desenvolvem-se em reação a fatores peculiares do indivíduo, da tarefa e do ambiente, porém, para isto, é necessário que haja uma interação eficiente de sistemas somada a uma mínima quantidade de energia necessária. Para que o indivíduo conheça e compreenda esta interação eficiente dos sistemas, torna-se necessário que ele perceba-se motoramente e seja inicialmente orientado por um profissional da área do movimento a fim de interrelacionar seus sistemas biomecânicos e as demais condições desenvolvimentais que influenciam o seu desenrolar como ser humano e, a partir daí, saiba tirar proveito das capacidades e funcionalidades que tais sistemas isolados ou em conjunto lhe oferecem. Quanto à aplicação de uma mínima quantidade de energia necessária para a realização de uma determinada atividade motora, o indivíduo irá alcançar esta habilidade com maior aproveitamento se experimentar com frequência e repetição este movimento ou atividade motora. Ou seja, o indivíduo obtém o menor gasto de energia em sua marcha, por exemplo, a partir do momento que torna frequente esta atividade em sua vida. Outros exemplos podem ser apontados, bastando para tal pensar-se no treinamento consciente ou não que realizamos durante e para a prática de nossas tarefas diárias - resultando um movimento mais ágil, rápido e objetivo com menor gasto de energia e, portanto, menos cansaço ou estresse durante sua realização ao longo do tempo.
Associando estes conceitos à atividade de orientação e mobilidade, o aprendiz irá obter seu padrão preferido de deslocamento ao promover a interação eficiente entre os sistemas osteoarticulares de membro superiores, membros inferiores e tronco. Além disto, será necessário também que o indivíduo observe e atenda estes sistemas às necessidades e demandas trazidas pela tarefa de manejo e uso da bengala (sincronia dos movimentos corporais e aqueles realizados com esta ferramenta), as solicitações da tarefa e às condições ou demandas do ambiente (affordances). O menor gasto de energia para a realização tanto da atividade de manejo quanto a de uso da bengala durante o deslocamento será obtida pelo treinamento e pela repetição significativa da tarefa, pela motivação para realizá-la e pela maneira de administrar seus êxitos e constrangimentos.
A obtenção de padrões preferidos para a execução de uma determinada tarefa ou habilidade, os quais são modificáveis pela determinação das exigências do sistema), encontram na compensação pelos sub-sistemas, quando o organismo está alterado por algum motivo, um importante recurso uma vez que o ser humano pode utilizar-se da plasticidade cerebral e de sinergias motoras importantes para o processo do ajustamento e readequação estrutural e funcional para o desempenho de atividades significativas do indivíduo.
Deste modo, a aprendizagem adequada do manejo e do uso da bengala nos diversos aspectos do cotidiano de uma pessoa cega é relevante para sua constituição como sujeito motor e psicossocial, devendo-se ter o máximo de cuidado e responsabilidade no compartilhamento desta "ensinagem" porque passado, presente e futuro podem se imbricar de tal forma que repercussões deste processo de aprendizagem e uso da bengala usualmente se refletem em algum momento da vida do aprendiz.
Cuidados e observações simples como o encaixe adequado do quadril durante a marcha, o posicionamento e amplitude articular dos joelhos e uso do passo fisiológico, considerando-se a presença ou não de desvios (como pé varo, valgo, invertido ou evertido), assim como cuidados e observações com a condição da coluna vertebral,membros superiores e cabeça são tão importantes quanto uma análise mais complexa das possibilidades posturais (estrutural e funcional) do indivíduo durante o manuseio da bengala em um determinado trajeto.
Para além destas referências, é aconselhável o cuidado com o comprimento da bengala e com o modo de transporte de objetos pelo aprendiz, uma vez que estas também poderão ser causas para o estabelecimento de desvios posturais e dores osteoarticulares em decorrência de microtraumatismos, vícios posturais e compensações inadequadas.
Relativamente ao comprimento da bengala, torna-se importante que não haja negligência tanto pelo aprendiz, sua família e seu instrutor já que a mesma foi projetada ergonomicamente no sentido de garantir a liberdade da passada do seu usuário e de evitar o surgimento ou acentuação da curvatura patológica da região lombar, levando a uma lombalgia. Assim, é importante a atenção quanto à medida desta bengala, ou seja, que ela tenha o comprimento da distância entre o solo e o apêndice xifóide (ou base do osso esterno) do seu usuário.
No que se refere ao transporte de objetos, é importante que o aprendiz tenha o conhecimento de como fazê-lo, evitando gastos energéticos desnecessários e a instalação de hábitos motores inadequados e desvios articulares originados por compensações corporais nocivas à saúde física, e mesmo emocional, da pessoa cega ou com baixa visão. Exemplos destas possibilidades são a fadiga, o estresse, a escoliose, a cifose, a ptose abdominal e a irritabilidade.
Com isto, visualiza-se claramente a extrema importância do processo de orientação e mobilidade - especialmente o ensino das estratégias e manejo da bengala no deslocamento de pessoas cegas ou com baixa visão - ser conduzido e monitorado por um profissional da área do movimento humano (como o Professor de Educação Física, Fisioterapeuta, Terapeuta Ocupacional, por exemplo).
Embora a OM não seja meramente um processo biomecânico, utilizando um sistema de alavancas corporais, não é possível descaracterizá-lo e menosprezar a preponderância da motricidade humana nesta função, a qual prescinde da contribuição motora para a obtenção do sucesso na execução das tarefas de orientação e mobilidade do indivíduo no espaço com eficiência, segurança e eficácia. Os fundamentos e produtos da motricidade, nos seus aspectos intrínsecos e extrínsecos, são do saber e da competência destes profissionais e, portanto, são eles que com conhecimentos específicos podem atuar com maior efetividade no âmbito da OM.
Infelizmente, no Brasil, são pontuais e escassos os locais onde estes profissionais atuam e são reconhecidos como fundamentais no desenvolvimento deste processo. Os próprios cursos de formação, tanto acadêmicos quanto de capacitação específica na área da deficiência visual, mantém-se resistentes à mudança ou desconhecem esta necessidade.
É óbvio que somente o conhecimento da motricidade não é suficiente para a boa execução de um trabalho em OM, uma vez que outros saberes são importantes e influenciadores no desempenho e desenvolvimento desta atividade - quais sejam os conhecimentos específicos e peculiares das descontinuidades e modificações na recolha de informações pelos diferentes canais sensoriais, condições emocionais e alterações psicossociais, por exemplo, geradas pela deficiência visual em determinadas situações e contextos. Assim, é necessário que estes profissionais da área do movimento humano também adquiram a especificidade do conhecimento sobre a deficiência visual em seus diferentes âmbitos.
Esta crítica não é realizada no intuito de desmerecimento das funções e papéis até então desincumbidos pelos professores de outras áreas do conhecimento - como professores de geografia, história, português, etc... -, mas é feita na tentativa de chamar a atenção e o reconhecimento da profundidade existente no ensino e no desenvolvimento de um programa que focalize a bengala como recurso para a realização de um determinado percurso e tenha no deslocamento o eixo desta atividade. É preciso pensar que no processo de OM não basta que o indivíduo vá de um ponto a outro no espaço, mas como ele alcança estes pontos e quais serão as repercussões motoras, emocionais e psicossociais destas mudanças.
Geralmente, os cursos que capacitam os professores para o desempenho de funções junto à pessoas com deficiência visual, nas diferentes faixas etárias, apresentam um conteúdo programático diversificado, no qual poucas horas são dedicadas à tomada de conhecimento de processos tão específicos e capazes de desencadear reações na mudança da qualidade de vida de uma pessoa. Estes cursos, na maioria das vezes,não ultrapassam a carga de quatrocentas horas para a aprendizagem do Sistema Braille, da Orientação e Mobilidade, Das Atividades da Vida Diária, do Sorobã, da Informática e das abreviaturas e outras sinalizações, por exemplo. Aliando-se esta superficialidade nos conhecimentos ao desconhecimento específico da motricidade humana, não resta dúvida do quanto de responsabilidade e criatividade estamos exigindo e sobrecarregando aquele profissional que detém outros saberes, mas não o do movimento humano.
O ideal seria a formação de equipes onde a inter e a transdiciplinaridade se constituísse para que ações fossem desencadeadas com competência, confiança e responsabilidade, evitando ao máximo o surgimento de percalços e dificuldades oriundos da nossa omissão ou do nosso desconhecimento.
Está claro que todos, ou pelo menos a grande maioria dos profissionais não habilitados na área do movimento humano, desenvolvem o seu trabalho em OM com a maior boa vontade em auxiliar e contribuir neste processo de aprendizagem da pessoa cega, no entanto, há situações em que boa vontade não é suficiente e é preciso complementá-la ou embasá-la com saberes próprios de uma profissão.
Em continuidade às propostas de desenvolvimento motor trazidas por Galahue e Ozmun (2005), sugere-se que os aspectos abaixo assinalados sejam analisados e considerados para o planejamento de um programa de OM, sendo simplesmente agregados a outros aspectos fundamentais já existentes ou reformulados dentro das necessidades e possibilidades do indivíduo, da tarefa e do ambiente.
Muitas pessoas cegas ou com baixa visão, para além da sua idade ou gênero, têm suas capacidades e habilidades motoras para o manejo e uso da bengala atrasadas por diferentes causas - por exemplo, limitadas oportunidades de realização de atividades independentes e autônomas, do ensino deficiente ou ausente e da pouca ou nenhuma motivação ou encorajamento pelos seus familiares e profissionais. No entanto, somente com a prática regular destas habilidades é que elas serão aprimoradas desenvolvendo-se a resistência, a força, o tempo de reação, a coordenação e a velocidade de movimento, entre tantos outros benefícios, tornando possível que o usuário da bengala tenha melhor nível de desempenho e mais êxito e eficiência em seus deslocamentos e orientações no espaço.
Contudo, é imprescindível a focalização de que o sucesso do ensino das estratégias do manejo e uso da bengala será alcançado pela identificação das condições limitadoras ou facilitadoras do desenvolvimento humano também nos seus aspectos motores. Além disto, é importante a consideração de que o ensino tem como base a redução dos obstáculos e dificuldades para a aprendizagem, ampliando as condições facilitadoras para uma apreensão e aprendizagem real de habilidades e maneiras de solução de dificuldades e administração de problemas.
Não basta ensinar ao aprendiz formas e modos de realização de uma determinada habilidade: é preciso dar a esta habilidade e ao modo de obtê-la e conduzi-la um significado e o incentivo para sua aplicabilidade em outros contextos, libertando a pessoa cega do seu desconhecimento das competências motoras e psicossociais disponíveis.
Disponibilizado em: 03/09/2009.
